Editorial
Ficar sem história?
Só a história pode garantir a segurança da nossa democracia em Portugal e do nosso bem estar nacional. Vivemos a globalização, vivemos o processo de unificação europeia. São processos que necessitam de um profundo conhecimento do nosso passado para compreendermos e orientamos as formações em nosso proveito a longo prazo.
0 estudo do
legado cultural o remoto e o mais recente necessita
de um espaço de reflexão teórica, um conjunto de saberes
e perspectivas, indispensáveis à compreensão profunda
das especificidades culturais de cada comunidade, bem como dos fenómenos
de contacto, impregnação e interacção histórica
e cultural entre os povos e civilizações.
Afigura se ser isto no plano da formação universitária, como no da investigação científica um vector absolutamente indispensável na construção de um conjunto de competências específicas para a leitura e a intervenção nos campos profissional e social perante os fenómenos interculturais e pluriculturais da evolução da própria identidade das nações decorrentes dos processos gerais de democratização e globalização das sociedades contemporâneas.
A nossa história é a nossa Bolsa de Valores. De acções heróicas e outras, do património consolidado que é a nossa história dependem os futuros e os derivados. Todas as opções estão infimamente ligadas à nossa carteira de fundos: à nossa história. A licenciatura em história da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias dirige se a todos os que pretendem adquirir uma formação universitária consistente no campo dos saberes e metodologias do conhecimento histórico em geral, apostando também na aquisição de um conjunto de competências especializadas nas problemáticas do património e das identidades no espaço civilizacional. lusófono.
A formação em história abre hoje em dia possibilidades de colaboração proveitosa nos campos de turismo e lazer, na recuperação do património histórico e cultural, nas assessorias da comunicação social e relações internacionais, na dinamização cultural de mais variadas formas.
É uma formação que promove a capacidade de pesquisar e juntar dados e analisá los a curto, médio e longo prazos.
É precisamente este tipo de competências que faz muita falta neste país. Não se pense como os profissionais da política que se limitam a abafar a contestação dos professores em desemprego: é uma estratégia de curto prazo, que deixará problemas mais sérios para as gerações do futuro. Como? A ameaça de continuarmos na cauda da Europa não está limitada ao descalabro em curso da gestão do orçamento e do que pode resultar com a partilha dos fundos estruturais com os novos candidatos para a união.
Mais grave do que isso é a nossa falha em acompanhar o processo dessa integração em termos culturais. E falo da criação do Espaço Europeu de Ensino Superior, uma das metas da Declaração de Bolonha. Enquanto a política do ensino superior em Portugal só pensa na história em termos imediatistas de professores em desemprego, a União Europeia está a dar à história um lugar de suprema relevância no processo da criação de uma síntese cultural europeia, reconhecendo que a história é essencial para compreender a «transição» e para salvaguardar as particularidades nacionais dentro da síntese cultural europeia.
Nas actividades transnacionais da União Europeia em curso, como o Projecto Tuning e a CLIOHnet, que acompanham os projectos Erasmus e Sócrates, já se produziram vários manuais com conteúdos históricos para a formação dos futuros cidadãos da Europa.
E eis uma consequência da política míope que estamos a seguir no nosso país: Logo no primeiro manual intítulado The Sea in European History (Edizioni Plus, Università di Piza, 2001) nos 16 ensaios nada se diz dos «descobrimentos portugueses» e «dos mares nunca dantes navegados» que o nosso poeta nacional cantou, mas já não é ouvido na Europa. No segundo volume, Nations and Nationalities in Historical Perspective, um tema fundamental para a integração cultural e política europeia, outra vez o mesmo silêncio.
Os políticos só parecem estar preocupados com o problema dos professores em desemprego e o desconforto que isso lhes causa neste momento, relegando para o futuro próximo problemas mais sérios para o país como membro da grande Europa.
É de apreciar esta iniciativa dos nossos licenciandos em História na Universidade Lusófona. A sua fé na História promete.
Prof. Doutor Teotónio R. de Souza
Sócio
da Academia Portuguesa da História
Coordenador
do Curso de História, Universidade Lusófona, Lisboa